terça-feira, 20 de julho de 2010

Da vitória do nosso amor,

Pelo cordão que me destes outrora e que serviu-me de garantia de vida.
Por essa primeira dívida e por todas as outras que fui aquirindo ao longo do tempo.
Pelas palavras insanas, pelo comportamento insano.
Todos derrotados por tua dura complacência.
Por essa batalha de amor e ódio que travamos há tempos. E pela vitória do amor que nos une, sobretudo.
Pelas máscaras caídas, pelas lágrimas que limpam o chão da nossa humilde casa. Sim, nossa casa tornou-se agora um lar.
Por todas as pedras que atiraram-nos, e por aquelas, mais dolorosas, que atiramos uma na outra. Pelas peças, pelas agressivas correntes que nós permitimos que pregassem em nossos pulsos, estes que agora sangram e sofrem.
Essas "tenebrosas tentações" que misteriosa e Divinamente deu-nos uma força vital, tal qual era quando constituíamos um corpo só.
Por essa nossa vida de aprendizados e por essa primeira e atroz batalha, da qual já somos vencedoras.
E aquele cordão - que nem sei por onde anda - me parece agora bem firme em meu pescoço.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

em defesa dos meus escritos

Escrevo minha arte.
Meus escritos são como folhas de um diário rasgado.
Folhas de um diário com algum componente criativo, alguma invenção.
Minhas palavras não pretendem causar o choque nem ousadia
O desafio é existir em si mesma. Livre de mim minha escrita é arte.
Porque arte não é o belo, o delicado, o singelo
tampouco é o feio, o rude, o complicado
artístico é o subjetivo, é o que se afina não só ao suposto artista
arte é menina órfã, querendo brincar e pegar nossas mãos
Se brincamos com a menina, sentimo-na de perto, então ela toca.
Tal é a arte. Toque. Aproximação. Afastamento. Reação.

Quando escrevo minhas cousas
quero tirá-las de dentro de mim
para derramá-las enfim sobre um papel
- senão transbordo de amor e fúria.

Por isso meus poemas são arte
São subjetivos na sua verdade - componente factual-
Tanto quanto na sua mentira - componente ficcional-
E minhas palavras não pretendem a beleza, riqueza, choque, espanto, rima ou estética.
Elas são como feixes de luz
disparam em diversos rumos aceleradas e dramatizadas.
Percorrem alguns cantos escuros e seguem em frente..
Por isso as chamo de arte.

Sigo a realizar essa transmissão unilateral:
eu - sentimentos - poema.

Não digo que constituem-se enquanto arte porque fazem parte de mim
Não, elas deixam de ser meus sentimentos exclusivamente quando tomam forma de poemas.
Numa metamorfose tornam-se elas escritos.
Palavras que vão além de mim e da minha vida
Elas podem ser meus sentimentos, os teus ou os de Ester
Elas se pretendem universais
posto que podem ilustrar minha vida, a tua ou a de Ester.
E nesse aspecto as chamo de arte.
Não advieram de mim por maiêutica
elas são fruto de algum esforço meu
mas depois de terminadas, não mais me pertencem exclusivamente.


São meus, mas podem ser teus e de Ester também.
Há uma liberdade na escrita que se sobrepõe à cor, status e credo.
Elas pertencem a quem as quiser.
Estas palavras sentimentalóides,
esta vida de Ester,
este poema que se encerra.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

um breve desabafo

Ester, andando na beira da praia
sapatos nas mãos, maquiagem borrada. Dona de intensas felicidades-relâmpagos..de uma vida com alguns escândalos, de um caráter e de um orgulho igualmente imensuráveis.
Ester é mulher para se entregar, para se deixar levar- por querer- Ester quer encontrar.
Todavia, é mulher para virar, dar a volta e simplesmente voltar- porque Ester quer encontrar.
E assim diverte-se em sua busca, pela sua força de mulher bandida, pelo seus sonhos de mulher apaixonada, pela sua força de mulher determinada.
E lá vem Ester, caminhando na praia, ritualizando mais um início,
mais um começo daquela sua velha procura de sempre...

domingo, 20 de setembro de 2009

À espera do ônibus vi um moço sem o pé
Perguntei se estava com fome. Ele disse que não e agradeceu.
Não me olhou nos olhos. Olhava para baixo como se não pudesse me encarar.
Tiraram a dignidade daquele moço.
Alguns transeuntes olhavam-no
uns com dó, outros com repúdio.
Como erguer a cabeça assim?


Eu te compreendo, moço.
Respeito o teu olhar baixo - apesar de querer te ver de cabeça erguida.
Respeito tua dor e tua vergonha.
Pergunto-me com que direito todos estamos agasalhados e limpos enquanto estás sujo e maltrapilho.


Com que Direito tiraram teus direitos básicos
tua dignidade, teu direito de homem?
Que igualdade é essa? Que liberdade é essa?
Usurpadoras do fundamental
Que matam de fome e de indignidade?

Brincadeira de beija-flor

Beija-flor beijaste tanto
como sabes do que gostas - da margarida ou da tulipa?
-Beija-flor gosta das duas rosas

Mas qual delas tu preferes?
a que beijaste agora ou a que podes beijar depois?

-A rosa que beijo agora beijaria por todo o sempre
mas me parece que aquela rosa está agora um pouco diferente
Uma nova rosa é outro sonho
outro suspiro e outro dilema
Mas preferir, prefiro a branca.

Ah, Beija-flor, pobre da rima deste poema!

-O perfume da outra também me provoca
Mas a rosa-rosa é outro poema.


Beija-flor
o que farás tu?
com tantas rosas para beijar..
Porque não viras logo um urubu?!

O cão e o frango

O cão é preto e levado
O frango é seu amigo - o frango de plástico!
O primeiro furta os ossos do lixo, ladrão esperto.
O dia todo é assim: o cão levado traz na boca seu frango quieto!

O frango, em gemidos, na boca do cão
O cão o sacode, o abraça, o solta:
E lá vai o Cocó, parar estendido com a crina no chão.

Mas na boca daquele cãozinho
o plástico desse franguinho parece até um monte de penas

É o cãozinho, que tem magia de criança
(criança canina!)
E transmite um pouco de sua vida
ao seu querido amigo Cocó.

Cisma

Não esperes muito das horas
elas podem ironizar-te
e podem custar longo tempo a passar.
Cuidado com o copo de leite que carregas
enquanto caminhas para a cama.
Distraída nas horas como andas
ele pode virar sobre a roupa que vestes.


Da mesma maneira cuidado com o que desejas
com teus sonhos e tuas vontades
eles podem não ser verdadeiramente o que tu desejas.

Fique atenta à mente vazia,
à casualidade das coincidências,
aos murmuros ao pé do ouvido,
às conversas insanas.

Olha tudo ao teu redor
Confere as coisas, as pessoas e os sentidos
Cuidado quando acordares e quando fores deitar.
Cuidado com o que tu pedes
e no que tu acreditas.
Cuidado, Ester.